30º Moto Rali do Moto Clube do Porto mostrou cidade com orgulho
Num verdadeiro ‘Regresso às Origens’, o Moto Clube do Porto levou a cabo o segundo evento do Troféu Nacional de Moto Ralis Turísticos 2026, recordando o pioneirismo na organização de eventos que conjugam o prazer de andar de moto com a descoberta de paisagens e locais históricos, que aliam a gastronomia com o contato com as gentes, que mostram, em suma, o que de melhor existe em cada local visitado. Foi exatamente esse o fio condutor de um fim de semana marcado pela variedade de paisagens - entre as serras e o mar – mas também das visitas proporcionadas a locais tão diferentes como os museus da Filigrana de Gondomar, das Motorizadas Antigas de António Maia ou do Carro Elétrico dos STCP. Bem como espaços de culto religioso do Mosteiro de Grijó à Capela do Senhora da Pedra, passando pela Sé do Porto e pela Igreja de S. Francisco. Locais que deixaram encantados os 83 participantes das 56 equipas inscritas, a maior parte delas pertencentes aos moto clubes de Albufeira, Asfalto Friends, Chaves, Coimbra, Conquistadores de Guimarães, Mafra, Matuzas, MK Mákinas, Motards do Ocidente, Motogalos de Barcelos, Riba d’Ave e Vespa Clube de Lisboa, além, claro está do anfitrião MC Porto. Merecido destaque foi dado a Tuxa Oliveira, Carla Machado, Patrícia Castro, Anita Carvalho e Vera Delgado, as cinco condutoras entre as 32 senhoras presentes, com idades entre os 15 anos da Maria Inês Carvalho (que levou o pai, João Ricardo, até ao 9º posto da classificação final) e os 72 de Gabriele ‘Gaby’ Wehle, a simpática alemã de riso sonoro.
A comemorar duas efemérides com datas bem redondas em 2026, o Moto Clube do Porto quis honrar o facto de realizar o seu 30º Moto Rali Turístico no ano em que festeja o 40º aniversário, centrando atenções na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto e com passagens pelos concelhos vizinhos para mostrar uma realidade urbana, quotidiana e histórica, que ultrapassa os limites físicos traçados pelo Rio Douro e pela Estrada da Circunvalação. Por isso mesmo, logo no sábado de manhã, os participantes, refeitos do animado jantar de boas-vindas da véspera, puseram os pneus das suas motos em três concelhos em menos de meia hora, saindo de Gaia e passando pelo Porto rumo a Gondomar. Onde o Museu Municipal da Filigrana de Gondomar abriu portas para mostrar uma das artes de maior orgulho e identidade nacional, onde a precisão no trabalho com materiais nobres encanta milhões em todo o Mundo. Incluindo a célebre atriz Sharon Stone que não esconde o entusiasmo sempre que utiliza o seu ‘coração de Viana’ feito pelo artesão gondomarense António Oliveira Cardoso.
Um facto cujo conhecimento valeria pontos na visita ao Monte Crasto, em pleno centro de Gondomar, elevação natural cuja ocupação humana terá sido anterior à ‘visita’ dos romanos e que está rodeada de lendas. Tal como a Senhora do Salto, pequena ermida encravada nas margens escarpadas do Rio Sousa, onde um cavaleiro terá sido salvo da morte certa ao invocar um milagre a Nossa Senhora enquanto caía da falésia em perseguição de uma lebre. Mais real era mesmo o petisco oferecido, uma bifana de forte tradição no local, e o jogo que todos animou para mais uns quilómetros até à travessia do Rio Douro pela barragem de Crestuma.
O Douro do lado de cá e de lá
De regresso ao concelho de Vila Nova de Gaia, tempo para visitar as instalações da Antero Motorcycles, grande apoiante deste e de outros eventos do Moto Clube do Porto, aproveitando para apreciar as gamas da BMW, Yamaha, Kawasaki ou CFMOTO entre outras marcas de motos e muitas de equipamentos. E houve até quem aproveitasse as promoções para fazer umas compras inteligentes antes da subida ao santuário da Senhora da Saúde, no alto do arqueologicamente rico Monte Murado, obrigando a nova organização da ‘top-case’ enquanto do alto avistava as ondas do Oceano Atlântico. E onde, mais tarde, iriam poder molhar os pés. Antes, porém, havia que seguir as tradições desconhecidas trazidas pelos monges galegos que tomaram de assalto o Mosteiro de Grijó, tentando anilhar o gargalo de uma garrafa que, tristemente, já estava despojada de qualquer líquido, mais ou menos precioso. Uma deceção para a maioria dos participantes que não logrou superar o desafio, com uma tristeza que durou poucas centenas de metros, logo aliviada pela surpresa proporcionada ao almoço.
Uma valente feijoada preparada pelo Grupo de Amigos das Motas e Motorizadas Clássicas, servida num amplo e multifuncional espaço que tem como atrativo maior o Museu António Maia, ‘descoberto e apresentado’ ao MCP pelos sócios António e Sandra Baqué. Com um acervo que evidencia a paixão de uma vida, este pequeno mas enriquecedor espaço museológico mostrou como os motociclistas são parte integrante da sociedade civil, servindo como palco de muito eventos da freguesia, desde festas a concertos ou exibições de ranchos folclóricos. Mas, já diz o ditado, ‘merenda comida, companhia desfeita’ e, mesmo que alguns gostassem e insistissem em ficar um pouco mais na conversa, lá partiu a caravana para mais uns jogos e umas perguntas que nestas coisas de moto ralis valem pontos.
Daí até à praia da Madalena foi um saltinho, com um pé na areia e outro na água do Atlântico, para ouvir a interpretação ‘sui generis’ do historiador José ‘Seca Adegas’ Barros sobre a lenda da capela do Senhor da Pedra – cuja construção remonta da 1763 - e sobre o seu formato hexagonal. Entretanto a sua partenaire, Alice Barros, apontava os resultados do desafio onde a tentativa era seguir o exemplo de Guilherme Tell mas, felizmente, sem a maçã sobre alguma cabeça. E se já não era fácil acertar com a seta, atirada não por um arco mas por uma pequena fisga, num pequeno buraco, imagine-se quando a preocupação maior era que as ondas não subissem em demasia ao ponto de molhar os pés.
Os XXX de Coimbra e os doutores galegos
Cumprido o jogo, com maior ou menor eficiência e depois de nova travessia do areal para chegar às motos, o completo e divertido ‘road-book’ encaminhou a caravana até à margem esquerda do Douro, oferecendo as melhores vistas da cidade do Porto. Que, dizem todos os que lá sobem, estão na Serra do Pilar! Pelo meio, mesmo à sombra da Ponte da Arrábida que aquando da sua inauguração era detentora do título de ponte com o maior arco de betão do mundo, estava o imparável casal de Coimbra cujas alcunhas começam por X, com uma pergunta que valia um X… na coluna do certo ou errado. Afinal, condizente com o espírito ímpar do Xuxu e da Xana, o resultado desta conjugação era… XXX.
Outra coisa que muitos não sabem – mas que quem esteve no Moto Rali do MCP descobriu… – é que existe ali mesmo e desde 1883 uma estação climatológica que é posto oficial número 08546 do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, responsável pelos registos de dados importantes da temperatura, vento, humidade e precipitação na região do Porto. O que serviu de inspiração para o jogo assistido pelos doutores especialistas Carlos Solia Rodriguez e Miriam Davila Garcia, obrigando a soprar através de um tubo para empurrar uma pequena bola, quais ventos que ajudavam os rabelos a navegar pelo Douro, imaginando as duas margens graças ao bocado de corda de onde o ‘barco’ não poderia sair até chegar à Foz simbolizada, imagine-se, por um garrafão cortado. Vá lá que era de água…
Jogo de tirar o fôlego (tal era o estado do dobrado e esburacado tubo…) que, logo ali, podia ser reposto respirando uns minutos enquanto se bebia uma água ou sumos, acompanhados por uns deliciosos pastéis de feijão, antes mesmo de sentir na pele, literalmente, os ventos que ajudavam os rabelos a vencer a distância desde a Régua, de onde partiam carregados de pipas de vinho. E assim, num barco que desses tempos guardou a inspiração estética, viveu-se um dos pontos altos deste primeiro dia do Moto Rali do MCP: uma viagem pelo Douro, permitindo apreciar o Porto de um ângulo único, que só o rio oferece. Os reflexos da policromia da zona ribeirinha refletida nas águas, a vista das pontes que marcam o perfil da cidade e evocam histórias centenárias de crescimento e desenvolvimento, ou o charme das caves de vinho revelam uma beleza autêntica que torna estes momentos verdadeiramente inesquecíveis. Como inesquecível será o ‘sunset’ que, sem estar no programa, reuniu os participantes de forma espontânea num local quase secreto, longe da confusão de um dos mais concorridos sítios da região na hora em que o sol baixa do horizonte atlântico, deixando a cidade banhada em cores únicas, reflexos de um calor humano sem paralelo.
Fim de tarde que, de tão fantástico, tornou custoso o regresso ao hotel Holliday Inn onde o animado jantar – que até contou com um inédito e tão inesperado pedido de casamento na presença do bispo de Guimarães e que ate surpreendeu… o noivo – serviu ainda para destacar aqueles que levaram de forma mais séria e empenhada o ‘caderno de encargos’ elaborado pelos mestres Germano Mateus e Mara Silva. E onde se percebeu que, apesar de liderarem, o Telmo e a Sandra Martins iriam enfrentar grande oposição dos covilhanenses António Costa e Rui Santos na ‘luta encarniçada’ pelo triunfo final. Enquanto isso, ‘Os Perdidos’ André e Bianca Ramos, bem como a dupla que grita ‘Olivença é Nossa’, do sempre aguerrido Vítor Olivença acompanhado pela Carla Bedoya, e o casal Lopes, Ricardo e Patrícia, mantinham-se por perto, na expetativa de um deslize dos três primeiros para entrar no pódio.
Mototuristando entre magotes de turistas
Um confronto de proporções épicas que alinhou uma manhã de domingo inteiramente dedicada à monumentalidade histórica do Porto, com enorme atenção aos cronómetros para evitar penalizações por passar fora da hora ideal nos vários controlos de passagem (sobretudo nos secretos!) e com inexcedível rigor na procura das respostas certas. Enquanto isso, muitas equipas, visivelmente desoladas por estarem foram da luta pelos apetecidos prémios, acumulavam atrasos graças ao entusiasmo e deslumbramento nas visitas à Sé do Porto ou ao Museu do Carro Elétrico. Pontos incontornáveis na história da cidade, partilhados com milhões de turistas e ligados por uma passagem por algumas das ruas mais típicas do velho burgo, antecedendo a paragem na zona do Infante, para um final em grande.
Isto graças à visita à monumental Igreja do Convento de São Francisco e um ligeiro passeio pedonal na zona da Ribeira (sem carregar capacetes e casacos diligentemente guardados pelos elementos da ‘equipa de atletismo’ do MCP) incluindo paragem na Casa do Infante e entrega dos questionários no não menos famoso ‘muro dos bacalhoeiros’. No final desse caminho sobre aquela que foi a Muralha Antiga da cidade e que trocou os antigos armazéns de bacalhau por convidativos (e caros) restaurantes, lá estava o possante escudeiro Fábio Cordeiro, garantindo que dali ninguém passava sem entregar o salvo-conduto sob a forma de um questionário respondido.
Claro que muito mais haveria para ver e contar de uma cidade com origens pré-históricas no morro de Pena Ventosa, onde é agora a zona da Sé, de onde haveria de surgir o nome Portugal e que sempre se esforçou abnegadamente em prol do reino. Lutou contra muçulmanos e castelhanos, franceses e leoneses, em batalhas que haveriam de gerar e garantir a independência de Portugal; foi palco de um levantamento militar que acabaria com a monarquia absoluta e esteve do lado dos liberais na guerra civil contra absolutistas. Posições liberais e progressistas que levaram Pedro IV de Portugal e I do Brasil a entregar o seu coração à cidade do Porto, estando guardado na Igreja da Lapa desde 1835.
De forma não tão literal, também o coração dos participantes terá ficado na cidade que, em 1986, assistiu ao nascimento do Moto Clube do Porto, e que ficou bem patente nos sorrisos durante o almoço final, no restaurante da Fundação António Cupertino de Miranda. Um momento de festa, acompanhado pelo vereador do Pelouro do Desporto, Juventude e Associativismo, Rodrigo Passos, visivelmente surpreendido pelo entusiasmo e qualidade do 30.º Moto Rali bem como pela capacidade organizativa e currículo do Moto Clube do Porto.
Um fim de semana em grande que terminou de forma mais especial para a equipa B15 do Motoclube Matuzas de Ponte de Sor, com Telmo e Sandra Martins a aguentarem bem a pressão final para vencer (com total de 56 pontos) sobre António Costa (Os Lobos), do MC da Covilhã, com 74 pontos, cabendo o terceiro lugar para o presidente do clube covilhanense Rui Santos (Parabéns a Você), com 82 pontos. Tempo ainda para entregar a Pedro Mendes (Ulmeirenses) o mais delicioso dos prémios, composto por duas francesinhas do melhor que há na cidade, oferecidas pelo restaurante O Pintainho 36, no Mercado do Bolhão, ao menos bem classificado entre aqueles que mais se esforçaram por responder às questões levantadas pela equipa organizativa.
Que assim elevou a fasquia para a próxima jornada do 29º Troféu Nacional de Moto Ralis Turísticos, a 16 e 17 de maio, com os Motards do Ocidente a proporem uma passeata através dos Castelos e Fortalezas do Alto Alentejo.